segunda-feira, 13 de julho de 2009

HOJE NAVEGO EU - desarmamento


Portaria n.º 369/70
Tornando-se necessário passar ao estado de desarmamento a fragata Pacheco Pereira:
Manda o Governo da República Portuguesa, pelo Ministro da Marinha, de acordo com o estabelecido no Decreto n.º 42173, de 4 de Março de 1959:

1.º Passar ao estado de desarmamento a fragata Pacheco Pereira a partir de 6 de Julho de 1970.
2.º Fixar para o mesmo navio a lotação especial anexa à presente portaria.Ministério da Marinha, 21 de Julho de 1970. - O Ministro da Marinha, Manuel Pereira Crespo.

Lotação especial da fragata «Pacheco Pereira»

Oficiais
Serviço geral:
Primeiros-tenentes …………….1
Equipagem
Artilheiros
Primeiros sargentos………...….1
Marinheiros……………...….......1
Fogueiros Motoristas
Cabos………..…………….......…1
Marinheiros…………………...….1
Radaristas
Primeiros grumetes…………....1
Electricistas
Cabos……………………….........1
Torpedeiros detectores
Cabos……………………….….....1
Manobras
Marinheiros……………….…......1
Sinaleiros
Marinheiros………………….......1
Abastecimentos
Primeiros sargentos……....…...1
Taifa
Marinheiros copeiros……....…..1
Nota. - Os efectivos desta lotação serão progressivamente reduzidos do pessoal que se for tornando desnecessário.
Ministério da Marinha, 21 de Julho de 1970.
O Ministro da Marinha
Manuel Pereira Crespo

sábado, 11 de julho de 2009

HOJE NAVEGO EU - Enigma versos KL7 - II

Os rotores da KL7 eram semelhantes aos aqui reproduzidos, eram alinhados conforme os códigos fornecidos.

HOJE NAVEGO EU - Enigma versos KL7 - I

Máquina de Cifra – Enigma
Esta máquina foi antecessora da KL7 utilizada no meu tempo de serviço militar na Marinha de Guerra Portuguesa. Era um engenho bastante engraçado no seu funcionamento, autentica máquina de escrever, no seu interior funcionava um sistema de rotores, que pressionando uma tecla de letra esta era substituída por outra. Todos os dias de manhã nos era fornecido pelo sargento S Loução as combinações a introduzir nos rotores para que se pudesse cifrar e decifrar as mensagens. Esta máquina além de prática era o sistema a bordo mais seguro de codificação. O período de vigência de mudança dos códigos variava consoante o grau de segurança, normalmente era de 24 horas.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

HOJE NAVEGO EU - militarismo ?


Militarismo ou não, eis a questão.
Não era para abordar este assunto, mas como o amigo A. Moleiro ex-mar da F336 Fragata Álvares Cabral postou no seu blog no dia 8 de Junho 2009 tal tema, sinto-me na obrigação de o expor.
Um certo dia chegados do mar, atracou a fragata Pacheco Pereira ao pequeno cais de Porto Amélia, era certo que todos iríamos descontrair e apaziguar os nervos para os bares daquela pequena cidade nortenha, mas não, aconteceu o inédito, praças para licenças não havia, qual o problema?
Na gíria, comentava-se que se a guarnição de um navio estando num porto e não houvesse licenças durante três dias o comandante do navio seria chamado à responsabilidade por haver descontentamento a bordo e mais dois dias seria transferido do comando, não sei se era verdade ou não, assuntos que nunca aprofundei pois as minhas preocupações eram de outras naturezas.
Certo é, como disse o Moleiro (N.R.P. Álvares Cabral - F336), nós da N.R.P. Pacheco Pereira - F337 sempre andámos aprumados e bem fardados, quer em terra (quando não à civil, mas sempre atentos) quer no mar. Chegámos a navegar ao lado da N.R.P. Vasco da Gama – F478, N.R.P. Francisco de Almeida – F479 e da N.R.P. Cimitarra – LDG 103 e via-mos a guarnição desses navios, em tronco nu, sem panamá, chinelas no pé, era outra marinha.
Voltando ao assunto, nesse dia de tarde, comentava-se por todo o navio: Hoje não me apetece sair de bordo, sinceramente não sei quem começou com esta ladainha, o certo é chegada a hora de formatura de licenças, ninguém compareceu na formatura.
A bordo havia um senhor cabo artilheiro, talvez o homem mais velho da guarnição a que lhe estava atribuída a execução da escala de serviço das praças, quando o navio não estava a navegar. O senhor cabo tomou a resolução de sair de licença só, ainda não tinha posto os pés em terra quando de repente voa direito às suas costas um desperdício encharcado em óleo vindo de meia nau (junto da peça de fogo) atirado não se sabe por quem, mais tarde suspeitou-se que seria um destemido Mar F.
Comentou-se depois que este acto não dignificava a camaradagem existente a bordo, quem quisesse sair de licença saía, quem não quisesse ficava.
Decorrido cerca de uma hora, houve-se no ETO de bordo, que o Senhor Imediato iria chamar todo o pessoal à sua presença e por isso as licenças estariam suspensas, eu que não estava de serviço nesse dia, chegada a minha vez fui chamado à sua presença a fim de esclarecer qual a razão de não querer sair de licença.
Recordo-me de dizer: Senhor Imediato, não vou de licença por não ter a farda em condições e estar sem dinheiro, não por mais nada, acredite que é verdade.
A resposta do Senhor Imediato foi, vai-te lá embora e tem juizinho, acreditou em mim, e hoje lhe digo, Senhor Imediato, ainda bem que acreditou, pois cometeria um erro condenando-me por um acto que eu estava inocente.
Certo é que estávamos quase no fim da comissão e uma meia dúzia de camaradas foram transferidos por alguns dias para o quartel dos fuzileiros a fim de capinarem o mato de castigo, no final da comissão regressaram a bordo.
Víamos no nosso comandante um grau de militarismo, mas também lhe víamos a preocupação com a guarnição, assisti e vi como elemento das unidades de desembarque que existia todo o cuidado para que tudo funcionasse na perfeição, num dos mais variados casos que me vi à “rasca”, foi levar o ordenança do navio a terra numa praia da Beira já ao entardecer com um zebro e no regresso o estado do mar alterou-se e para o pior começou a anoitecer, o meu proeiro só me dizia quando vinha-mos ao de cima na vaga, vai nesta direcção, o rádio encharcado, sem piar, a nossa sorte foi os projectores do navio iluminarem o nosso caminho. Sei que quando chegamos procurou saber se estávamos bem, por isso agradeço ao então Cap Frag Vicente Almeida D’Eça nosso comandante por nos ter trazido a todos de volta.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

HOJE NAVEGO EU - Durban - III

Carlton Hotel – A Retirada
Acabada a festa era a hora de preparar a retirada.
O pessoal à civil debandou, os outros como estavam fardados a coisa tornava-se mais séria, pois dávamos nas vistas, planeámos a estratégia de permanecer juntos, pois seria mais fácil enfrentar o que viesse acontecer.
Saímos do Carlton Hotel todos juntos e dirigimo-nos para o lado da praia, não tínhamos percorrido cem metros, os carros da polícia à nossa frente, demos meia volta, sempre ordeiramente, mais cem metros e outros carros da polícia, estávamos cercados, vimos uma transversal e entrámos nela, foi o nosso azar, caímos na ratoeira.
Como é sabido, nestas paragens há sempre emigrantes portugueses, (dizia-se à boca cheia que quando os americanos chegaram à Lua, encontraram um madeirense estabelecido com um bazar) alguns vieram em nosso socorro oferecendo-se para tradutores, não aceitámos, pois já eram nossos conhecidos e de ginjeira, tudo faziam para nos prejudicar no relacionamento com os sul-africanos, agradecemos e dispensámo-los.
Passámos a ser directos interlocutores com a polícia sul-africana.
Como estávamos encurralados não podendo sair para lado algum, a polícia tentava agarrar-nos para que entrasse-mos nas carrinhas deles, nós resistimos dizendo que éramos sailors portugueses e só com autorização do comandante do navio é que entraríamos nos carros deles. Assim foi passando o tempo neste jogo, eles a tentarem falar de maneira que percebêssemos, nós a tentar perceber o menos possível.
Passado mais de uma hora, receberam indicação pelo rádio de nos irem por ao navio, lá fomos.
Á chegada ao navio fizemos questão de lhes oferecer umas cervejas, confraternizámos já falando alguma coisa em inglês, aconselharam-nos sempre a andar em grupos, nunca sós, e sempre que quiséssemos vir para o navio que nos dirigíssemos a uma esquadra da policia que eles durante a ronda nos viriam trazer a bordo.
À minha conta não abusei muito, só por duas vezes recorri ao serviço deles, entravamos na esquadra dizíamos que queríamos ir para o ship, diziam-nos para esperar e pouco depois lá íamos para bordo, era sabido que lhes oferecíamos umas laurentinas.
Tinha uns tios a residir em Durban, onde por vezes me deslocava a casa deles, sempre de táxi quando só, dois dias depois da festa no Carlton Hotel o meu tio contou-me que na fábrica onde trabalhava não se falava de outra coisa, que os marinheiros portugueses tinham morto um tipo que na altura era referenciado pela policia como perigoso. Foi também confirmado por um policia numa das vezes que veio a bordo trazer camaradas.
Mais tarde o Carlton Hotel foi demolido, acabando-se a história dos marinheiros, xulos e putas naquela cidade de Durban.

HOJE NAVEGO EU - Durban - II

Carlton Hotel - O Baile
Por volta das dezoito horas, começo do bailarico, entramos e agrupámo-nos conforme o determinado anteriormente, começam a chegar os dançantes e toda as gentes das redondezas, o conjunto toca, uns bailam, outros bebem e nós marujos permanecemos sentados com as fulanas trocando o que havia para trocar naquele momento, verificamos que alguns dançantes estão armados, pois via-se debaixo dos casacos alguns coldres de armas, são fazendeiros que desceram à cidade para se divertirem, não nos metemos com ninguém, aguardamos os acontecimentos.
Passado que era talvez uma meia hora, já com a sala à pinha, entram uns quinze tipos, bluzões de cabedal, botas da tropa, mocas, caras feias, enfim, afastam toda a gente do local onde nos encontramos e desafiam-nos com as seguintes palavras: Filhos da Puta, vão para a vossa terra, se são homens saltem para aqui. Nós plhamos uns para os outros e respondemos-lhes em Inglês vernáculo: Filho da Puta e Xulo és tu e vão-se embora senão partismos-te os cornos.
Na sala deveriam estar para cima de quatrocentas pessoas, a sua dimensão seria na ordem dos trezentos metros quadrados, só havia uma entrada ou seja a mesma saída, a dimensão da porta era normal, stenta centimetros, a essa porta estava uma velhota a cobrar um "Rand" por entrada, a cerca de dois metros de altura havia janelas por onde se renovava o ar.
E palavras não eram ditas, tudo aconteceu.
O marinheiro fogueiro (coordenador do projecto e sempre pronto para estes convivios), levantou-se, atirou uma garrafa de cerveja contra a parede, o seu estrondo foi de tal ordem que parecia uma granada, toda a gente tentava fugir de qualquer maneira, uns pela pequena porta arrastando a velhota, outros tentavam as janelas, todos se atropelavam, nós em unissono gritávamos vamos a eles, saltámos as mesas já com os cabos de aço em riste, demos-lhes tantas que alguns ficaram estendidos no chão da sala.
O grupo à civil que permanecia à entrada foi tratando do resto como pode, conforme saíam, comiam.

domingo, 28 de junho de 2009

HOJE NAVEGO EU - Durban - I

Carlton Hotel - O Inicio
Foi numa Sexta-feira em que tudo começou, não tenho preciso na minha memória, mas julgo ter sido da segunda vez que aportámos a Durban.
Há muito que se escondera o sol, quando recolheu a bordo um nosso colega bastante mal tratado, tinha estado no famoso Carlton Hotel, um bar (tipo Cais do Sodré) que funcionava no rés-do-chão do hotel, em que todos os fins-de-semana se organizava bailaricos para as gentes dos arredores ali se divertirem e não só.
Nós marujos de água salgada, também rumava-mos aquelas paragens para confraternizar com as moçoilas lá do sítio, sim elas também se sentiam satisfeitas e orgulhosas por nos consolarem e apagar as nossas tristezas de borla.
Nesse dia o nosso camarada tinha resolvido aparecer só por aquelas bandas, coisa que todos sabíamos que era perigoso, porque além das ditas moçoilas também por lá compareciam os ditos "xulos" e não éramos bem vistos aos olhos daquelas gentes.
Por ciúmes ou por o negócio não lhes estar a correr pelo melhor, devido à nossa permanência por algum tempo na cidade, resolveram dar um correctivo no nosso camarada e assim aconteceu, o moço recolheu à enfermaria do navio para tratamentos.
Como não podia deixar de ser, começou a circular em voz baixa o que era preciso fazer, por certo qualquer coisa, tinhamos que limpar a nossa imagem.
Com a cumplicidade dos sargentos e ensinamentos dos cabos, pessoas peritas na matéria e seguindo os seus ensinamentos, passamos à preparação das operações nesse sábado de manhã.
Primeiro, fazer umas mãozinhas de cabo de aço com uma porca na ponta, pois já sabiamos que os "xulos" andavam de armas brancas e de fogo.
Segundo, uma pequena equipa trajaria à civil, ficaria à porta, a controlar as operações de entrada e para quando a festa começasse não deixaria sair nem entrar mais ninguém, a outra equipe entraria na sala fardada e procuraria sentar-se às mesas de modo a ficar com as costas voltadas para a parede.
Assim foi, colocado os cabos de aço dentro dos bonés, percorremos a cidade em grupos até chegar as horas da abertura do salão de baile.